21/11/11

A árvore

Nós, em nosso ócio,
desconhecemos você.
Aqui viemos pelas crianças,
pelas ordens, pelo sol.
Aqui andamos, aqui conversamos,
aqui fazemos ioga.
E você ergue as mãos,
sombra eterna,
e os carros buzinam lembranças
do mundo que desconhece.

14/11/11

Natal

A ceia fria foi para geladeira.
A música ficou presa nos discos.
E as conversas
partiram com os carros
para longe 
do meu espírito.

Nenhuma luz piscou de novo
naquele dia. 

O quarto estava pontilhado pelo luar. 
Dormíamos nós três, éramos todos criança. 

E, na madrugada, meu entreolhar
                           entre sonho e realidade
                           viu uma sombra passar. 
                           Cansado,
                           voltei a me deitar. 

Pela manhã, 
ainda cedo, acordei  e embaixo da cama 
vi que ganhara, como presente,
um carro de plástico. 

Eu fui feliz.

13/10/11

Saudação ao sol


Abro as janelas do meu apartamento,
que correm da esquerda para direita,
e saúdo o sol. 

Eu saúdo o sol
porque abri as minhas janelas.

Eu também saúdo o sol com meus olhos.
carros bebem café pessoas
assistem à televisão pombos
ouvem rádio e árvores no sofá
relaxam suas pernas
lendo o jornal do dia anterior. 
Eu sei saudar o sol também com meus ouvidos.
carros discutem financiamento pessoas
brigam por times de futebol pombos
esquecem lancheiras e árvores
rosnando reclamam raivosas
de erros de português no jornal.
E o resto do meu corpo saúda o sol
em uma quase elegia, 
deitando-se no chão de taco gelado, 
em busca da luz débil que recai
da esquerda para direita
e ilumina meu apartamento apertado. 

08/06/11

Olhando por essa janela

Olhando por essa janela
desse andar tão alto, dessa solidão tão vasta
eu vejo uma multidão de carros passar
sozinhos, uns com os outros
a maioria sem nenhum.
Esses homens, essas mulheres
que se guiam pelas idéias nossas, e não me saúdam.
Eu ergo minha mão, sozinho.
Eles, no entanto, dirigem sem parar.
Não estão nem aí.
Sou o galho quebrado,
já fora da árvore.
Por isso, ergo minha mão
mais uma vez, e sou atropelado,
como um palhaço no picadeiro.
Eu celebro a solidão
de mãos dadas com o homem
que venceu e voltou para casa.
De sapatos azuis.
Porque há muita poesia
nas sarjetas imundas
desse andar tão alto, dessa solidão tão vasta.