― Observe o depoimento de Fernando, 19 anos, filho do dono da casa.
“Naquele dia, eu estava estudando, lendo algumas coisas sobre Karl Marx. Eu tinha prova no dia seguinte e só pensava em estudar no meu quarto. De repente, eu escutei que ela tinha acionado aquele troço da panela de pressão. Eu não sei qual é o nome daquilo. Afinal, eu não trabalho na cozinha. Então, ouvi aquele chiado forte. Tudo parecia estar normal, porque essa é a zoada normal da panela de pressão. Então, quando menos esperei, senti, ao mesmo tempo, um tremor na mesa do meu quarto, seguido de um forte estouro. Eu me levantei assustado e corri para cozinha. Ao chegar lá, vi o que tinha acontecido”.
― Infelizmente, ele declarou apenas essas palavras. Veja, no entanto, o que alegou a senhorita Eugênia, 22 anos, irmã dele.
“Eu tinha conversado com ela pouco tempo antes da explosão. Ela tinha me falado que havia discutido com alguém que eu não me lembro o nome. Por causa disso, ela estava bem alterada e agitada. Eu fui tomar o meu banho, porque eu ia sair com o meu namorado. Ele já estava me esperando na sala, quando entrei no chuveiro. Quando eu estava me ensaboando, lembro de ter ouvido um barulho estranho, mas não dei muita importância. Continuei a me ensaboar e a me enxaguar. Então, quando saí do banheiro, vi meu irmão e meu namorado no local do acidente”.
― Um tanto quanto curioso, não? Repare, agora, no depoimento estranho do namorado da moça, o senhor Cardozo, 25 anos.
“Eu cheguei na casa de minha namorada por volta ainda das 10 horas da manhã. O irmão dela parece que estava no quarto, estudando; e Eugênia estava de papo com ela. Acho que porque eu cheguei, minha namorada resolveu se arrumar para a gente sair para... Bem, eu tenho de falar, não é? Para um local mais reservado, onde a gente pudesse ficar sozinhos, para... para... fazer... ora, fazer aquilo. Estávamos há muito sem... bem, praticar, porque eu estava viajando. Eu estava no sul do país há quase um mês. Aí, Eugênia foi tomar banho e eu fiquei na sala, esperando. De repente, não sei porquê, cansei de ficar sentado no sofá. Resolvi, então, estirar as pernas, passeando pela casa. Fui até a cozinha tomar um copo d’água.Quando entrei lá, eu me deparei com ela: uma morena alta: tinha um metro e oitenta, os olhos de mel, os lábios grossos, os seios fartos, o corpo bem delineado, como um violão; ela estava vestida com uma saia curta e um tomara-que-caia cujo decote era bem sensual. Você sabe, eu sou homem. Quando eu vi aquela mulher pela primeira vez, não pude resistir. Fiquei com a libido alterada. Pedi a ela um copo d’água e comecei a conversar. Ela estava um pouco nervosa, mas deu para bater um papo. Eu não resisti: passei a mão nela. E ela gostou. Ainda bem que Eugênia não vai ter acesso a essa declaração, não é? Pois então, como eu estava dizendo, ela gostou do fato de eu ter passado a mão nas pernas dela e nas outras partes do corpo. Foi rápido: deu tempo de a gente fazer ali mesmo, sobre o balcão da pia. Para mim, foi um alívio.Depois disso, eu voltei para sala a fim de aguardar Eugênia sair do banho. Você sabe como as mulheres são, elas demoram infinitamente no banheiro. De repente, eu escutei um barulho de panela de pressão e, depois de algum tempo, um estrondo e uma explosão. Eu fiquei assustado. Corri de novo para a cozinha para ver o que tinha acontecido. E lá estava o acidente”.
― Acho que ninguém esperava um depoimento desses, que explica, e até mesmo desmente, uma hipótese que saiu em uma pequena nota, no jornal Do Estado. Observe-a, agora:
“Uma pessoa morreu ao manusear uma panela de pressão enquanto cozinhava em um apartamento no bairro da Várzea, em Recife. A vítima foi a empregada doméstica Maria de Melo Silva, 16 anos, que, segundo a polícia, ao diminuir a pressão de maneira bastante imprópria, foi pega de surpresa com a explosão da panela em sua face. Maria morreu na hora. Os policiais encontraram vestígios de sêmen na roupa da empregada, o que indica que antes de morrer ela foi estuprada. O enterro acontecerá amanhã, no cemitério de Santo Amaro. O caso será investigado pela DPCA.”
― Ainda assim, ao prestar depoimento, o senhor Josué, porteiro do prédio, revelou outras informações. Veja-as com seus próprios olhos:
“Ela chegou no prédio, logo de manhã cedo, chorando bastante. Os porteiros dos prédios e as empregadas têm uma amizade muito forte, não sabe? Porque a gente sabe da vida dos outros; observa quem chega e quem vai e conhece um pouco de cada um. Então, como eu estava dizendo, ela chegou no prédio chorando muito, porque tinha discutido com o macho dela, e, se não estou enganado, ele tentou estuprar e matá-la. É um cabra safado mesmo. Depois disso, não falei mais com ela. Só vi o corpo dela sendo retirado do apartamento pelo IML”.
― Logo quando li esse depoimento, quis saber quem era o marido de Maria de Melo. Será que ele realmente tentou estuprá-la e matá-la? Para esclarecer essa dúvida, ele foi convidado a depor na delegacia. Eis o que declarou:
“Meu nome? Meu nome é Teodoro da Silva, tenho 30 anos e sou viúvo. Eu ainda custo a acreditar que minha mulher morreu por causa de uma panela de pressão. É um fato estranho. Naquela manhã, a gente tinha discutido por causa do café que caiu na blusa dela. Eu fui limpar, o senhor sabe: a gente às vezes não se controla. Eu tentei lamber os peitos dela, mas ela disse que estava enjoada, não queria deixar. Aí eu disse que era o homem dela e que estava afim de pegá-la naquele momento. Mesmo assim, o senhor acredite, ela não quis dar pra mim. Eu fiquei arretado, disse um monte de palavrões para ela naquele dia, e ela foi embora para o trabalho chateada comigo. No meio da tarde, eu fiquei sabendo do acidente. Eu chorei demais, senhor; peço perdão a Deus pelo que eu fiz naquela manhã”.
― O que me chamou a atenção, no depoimento de Teodoro, foi o fato dele citar que Maria de Melo estava enjoada. Segundo o relatório do IML, constava na bolsa da vítima um recibo de um laboratório. Observe a declaração da senhora Juliana, secretária do estabelecimento, em que esteve a vítima, e o resultado do exame do Beta CGH.
“Ela deu entrada no dia anterior. Ela estava bastante irrequieta, olhava a todo instante para o relógio, esperando para fazer o exame do Beta CGH. Ela tinha a aparência de gente humilde. A gente perguntou se ela estava querendo estar grávida. Ela nos disse que sim; um filho seria a melhor coisa para ela. No exame, consta positivo para gravidez. Ou seja, ela estava grávida antes de morrer. Coitada”.
― Esta revelação é de importância fundamental para a continuação das investigações, porém não menos relevante que a declaração de José Silva, zelador do prédio vizinho. Analise-a.
“Para falar a verdade, eu achei foi pouco a morte dela. Deus me perdoe, mas ela era uma puta que vivia dando por aí. O pessoal de onde ela trabalha comia ela. Digo isso porque um amigo nosso escutava os gritos quando eles estavam fazendo a safadeza. O patrão e o filho do patrão pintavam e bordavam com ela. Ainda por cima, ela também já tentou dar para mim, mas eu não quis não: eu sou casado e, além do mais, fiquei com medo de pegar doença”.
― Para o porteiro, Maria de Melo é uma mulher diferente das outras. Depois desse depoimento, quis saber da relação dos patrões com a vítima. Veja, primeiramente, o que disse o senhor George Franco.
“Sim, eu tinha relações sexuais com a vítima. Ela possuía um corpo voluptuoso, muito belo e excitante. As relações conjugais com minha mulher não estavam bem. Depois de certo momento em nossas vidas, a nossa relação desgastou-se. É uma pena. Porém, a vítima concordou em ter relações comigo. Assim, ela ganharia mais dinheiro junto com o salário. Quando estávamos sós, fazíamos no sofá da sala, sem nenhum método anticoncepcional. Ela era muito boa nisso. Eu não sei se o filho que o senhor diz que ela estava esperando é realmente meu, porque, se não estou enganado, a vítima era casada. Seria necessário, portanto, o exame de DNA, para confirmar o que se diz”.
― Note, agora, a visão que a senhora Franco construiu da vítima.
“Ela era uma pessoa muito trabalhadeira. Estava interessada em ganhar o seu salário. Eu não conversava muito com ela, porque acredito que deve existir uma relação entre patrão e empregado. Sim, ela fazia uma boa comida, só que às vezes apimentava demais o feijão. Nunca deixou quebrar nada em minha casa, nem mesmo um copo de vidro. Não sei por que a panela de pressão explodiu, já que em minha casa tudo tem uma boa qualidade. Com isso, tive um prejuízo muito grande com o teto e outros equipamentos danificados na hora da explosão. Eu lamento bastante pela morte dela”.
― Esse depoimento mostra que jamais ela perceberia o que estava acontecendo em sua casa.
― Mas, Augusto, o que esta investigação e esses depoimentos querem provar? O que você está tentando dizer? Aonde você deseja chegar? Que eu saiba, você não é delegado, nem policial. Você é como eu: um simples cidadão assaltado em um ônibus que está esperando o ofício da queixa sair.
― Ora, Carlos, isso é apenas um passatempo. Um passatempo como o futebol. Não é bela a realidade?
― Oh, sim! Você está louco, louco!